Desde os anos 1970, o nome de José Milton vem sendo progressivamente creditado como produtor musical de álbuns de cantores como Angela Maria, Miúcha, Nana Caymmi, Nelson Gonçalves (1919 – 1998) e Raimundo Fagner. Nesse ofício, no qual se projetou sobretudo a partir das décadas de 1980 e 1990, o artista cearense – em foto de Lívio Campos – sempre evidenciou o apego às tradições musicais da MPB e também da música brasileira produzida antes da revolução da Bossa Nova.

As produções fonográficas de José Milton se caracterizam pela reunião de grandes músicos, postos a serviço de atmosfera sonora tradicionalista, geralmente pautada pela cadência do samba-canção e do bolero, ritmos afins. Retrato cantado (Biscoito Fino), disco outonal em que José Milton retoma carreira de cantor que havia rendido até então um único álbum lançado há 42 anos – A uma dama transitória (1976) – é extremamente fiel ao trabalho desse produtor nascido em Fortaleza (CE) em 31 de agosto de 1945.

Em que pese a origem cearense, foi cantando no rádio e na noite das cidades do Recife (PE) e de São Paulo (SP) que José Milton exercitou a voz grave como crooner de boates. Em Retrato cantado, essa voz soa sempre afinada, mas por vezes um pouco dura ou levemente empostada, como atesta a audição do samba-canção Molambo (Jayme Florence e Augusto Mesquita, 1953) já na abertura desse disco gravado sob refinada direção musical do pianista Cristovão Bastos, nome recorrente nos álbuns formatados pelo produtor musical.

Se falta algum molejo em Foi uma pedra que rolou (1940), ainda que o cantor encare corajosamente as sucessivas quebras desse samba de Pedro Caetano (1901 – 1992) que José Milton revive com o toque nordestino da sanfona de Adelson Viana, sobra entendimento do ar esfumaçado que oxigena sambas-canção como Nem eu (Dorival Caymmi, 1952), cantado pelo produtor em dueto com Angela Maria.

Uma das principais intérpretes desse samba-canção, gravado por ela em 1953, a Sapoti integra o vasto time de convidados do álbum Retrato cantado. Vários artistas que tiveram discos produzidos por José Milton marcam presença no disco. Se Nana Caymmi põe a voz emotiva no samba-canção Velho piano (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 1982), Raimundo Fagner reaviva Atiraste uma pedra (Herivelto Martins, 1958) com o anfitrião e com o arranjo escrito pelo pianista Gilson Peranzzetta em 1987 para não concretizado dueto de José Milton com Nelson Gonçalves. Já o padre cantor Fábio de Melo – para quem o produtor formatou recentemente bonitos discos voltados para o universo da MPB – percorre com Milton a estrada interiorana da canção Tocando em frente (Almir Sater e Renato Teixeira, 1990).

“Retrato cantado é uma viagem sentimental pelas canções que fazem parte da minha vida e marcaram meu caminho nesses 50 anos de trabalho e de amor à música”, carateriza José Milton no texto que escreveu para o encarte da edição em CD deste álbum gravado com músicos do naipe excepcional do violonista João Lyra, dos baixistas Jamil Joanes e Jorge Helder e dos bateristas Jurim Moreira e Paulo Braga, entre outros.

Nessa viagem de ambiência linear, pautada por sofisticação musical que inibe o sentimentalismo, José Milton atiça a memória afetiva ao gravar o samba-canção Recife, cidade lendária (Capiba, 1950) – música que ouvia na infância vivida em Fortaleza (CE) – com o solo de Jeovah da Gaita.

O samba-canção é o ritmo dominante do disco, estando representado por músicas como 50 anos (Cristovão Bastos e Aldir Blanc, 1996). Contudo, Retrato cantado também cai eventualmente na cadência do bolero, como em E era Copacabana (2006), música gravada por Milton com Carlos Lyra e Joyce Moreno, compositores do bolero.

E por falar no gênero, Milton regrava Bolero de Satã (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1976) com os toques dos violões de Guinga e Jean Charnaux. No caso, o verbo regravar é adequado porque Bolero de Satã foi lançado na voz de José Milton no já mencionado primeiro álbum do artista, A uma dama transitória.

Fonte: G1

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