Um dos termos recorrentes nesta semana, durante o evento para desenvolvedores da Google, o I/O 2018, foi o “bem-estar digital”, conceito apresentado junto do Android P e que visa diminuir o vício que os usuários têm de ficar constantemente conectados e de olho nas telinhas dos smartphones. Ainda que tenha sido apresentado como uma novidade, incluindo ferramentas para diminuir a distração com os dispositivos móveis, o projeto vem sendo desenvolvido há algum tempo, mais precisamente cinco anos.

Em fevereiro de 2013, o então gerente de produtos Tristan Harris apresentou um slide com o título “Uma chamada para minimizar a distração e respeitar a atenção dos usuários”. “Mudanças como essa só podem acontecer de cima para baixo, a partir de grandes instituições que definem os padrões para milhões de pessoas. Estamos em uma ótima posição para fazer algo sobre tudo isso”, disse na época.

Entre as propostas para redução do uso dos telefones estavam ideias para diminuir a frequência de interrupções, reunir notificações em lote em um resumo e um processo de verificação para incentivar as pessoas a usá-los menos. Tudo isso acabou sendo traduzido para o Android P, como no caso do Dashboard, uma ferramenta que contabiliza o tempo gasto com o aparelho ligado e quais os softwares são mais utilizados — com a possibilidade de programar um limite de consumo para os aplicativos.

Facebook “atrasou” a apresentação do projeto
Na terça-feira (08), Harris celebrou bastante o anúncio do conceito junto do Android P. “Esses são os primeiros passos para um movimento humano na tecnologia. É um longo caminho para ajustar tudo isso, mas o mais importante é comemorar o fato de que a Google realmente está fazendo isso”, disse. Mas fica a pergunta: por que foram cinco anos desde a ideia original e o anúncio somente agora, já que nenhuma das novidades apresentadas podem ser consideradas tecnicamente difíceis de serem implementadas?

Isso vai colocar pressão sobre todas as companhias, para que elas sigam o mesmo caminho, diz ex-funcionário do Facebook, ao elogiar a atitude da Google

Bem, na época que Harris apresentou os slides internamente na companhia, a coisa toda não pegou muito bem. Era um período em que a companhia investia na sua rede social Google+ e incentivar os usuários a se desconectarem não foi bem visto pelos executivos do alto escalão — que viam isso como prejudicial na concorrência com o Facebook. Em 2016, ele deixou a companhia e fundou o Centro para Tecnologia Humana, uma organização dedicada à se opor ao que eles chamam de “corrida para monetização da atenção”.

Como a Gigante das Buscas desistiu de concorrer com o Facebook por redes sociais e atualmente há mais preocupação com o assunto que Harris tanto insistia, a empresa viu então um momento mais propício para implementar essas ideias. Aliás, até mesmo um ex-funcionário do grupo de Mark Zuckerberg e agora membro do Centro para Tecnologia Humana, Sandy Parakilas, espera que sua ex-firma siga o exemplo. “Isso vai colocar pressão sobre todas as companhias, para que elas sigam o mesmo caminho. A Google precisa ser elogiada por ser a primeira.”

Ainda é cedo para dizer se a moda pega e se isso se tornará uma onda de conscientização entre as gigantes do setor. Contudo, os questionamentos de Harris continuam sendo relevantes, já que a cada dia vemos mais problemas de déficit de atenção e pessoas constantemente coladas com a cara no celular.

“Até o agora, a atitude da indústria de tecnologia tem sido ‘Você tem um problema? É sua responsabilidade usá-lo de maneira diferente’. É nossa responsabilidade projetar a tecnologia de uma forma que se preocupa com as pessoas primeiro. Se os problemas são notícias falsas, saúde mental, solidão ou dependência, o momento mostra que a maré está mudando”, diz Harris.

Fonte: TecMundo

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