É difícil acreditar que o cantor que há duas semanas fez o público carioca dançar, ao apresentar o show da turnê Mestiço pela primeira vez na cidade do Rio de Janeiro (RJ), seja também o ator que está sendo visto desde quinta-feira, 31 de maio, na pele da drag queen cantora Imã, uma das personagens da galeria afetuosa de loosers de Paraíso perdido, primeiro filme dirigido por Monique Gardenberg desde Ó paí ó (2007), exibido há onze anos.

Ao longo do filme, cuja trilha incidental foi orquestrada pelo compositor e músico Lourenço Rebetez, outras (belas) canções do mesmo estilo popular são interpretadas no palco da boate Paraíso perdido pelos atores do longa-metragem. Um exemplo é o maior sucesso da carreira do cantor pernambucano Augusto César, Escalada (Jorge Silva e Carlos Sérgio, 1987), que ganha a voz de Júlio Andrade, ator excepcional que encarna Angelo, filho do patriarca José, vivido por Erasmo Carlos. Merece, a propósito, menção honrosa a cena em que Angelo dubla a gravação original de Minha coisas (Rossini Pinto, 1970), canção celebrizada na voz do goiano Odair José, ídolo da canção popular brasileira da década de 1970. Todos amam (e todos sofrem) na trama.

Cerca de 20 músicas do gênero aparecem ao longo do filme, muitas na voz de Jaloo que, na pele da fictícia Imã, mostra uma segurança vocal que ainda não havia sobressaído nas gravações feitas pelo artista na vida real. É Jaloo quem canta De que vale ter tudo na vida (José Augusto, Miguel Plopschi, Marcelo, Salim) – canção que alavancou em 1973 a carreira do cantor carioca José Augusto – e Não diga nada (Leonardo Sullivan, 1981), hit na voz do cantor Gilliard. Jaloo segue trilha que desemboca em Amor marginal (2012), música do cantor e compositor Johnny Hooker, seguidor das tradições sentimentais da canção popular. Com a voz aveludada de timbre acariciante, Seu Jorge também brilha, revivendo Doce pecado, música do cantor e compositor Fernando Mendes lançada na voz de Reginaldo Rossi, ícone desse gênero de canção celebrado no filme.

Outra – Não creio em mais nada (Totó, 1970), sucesso do cantor capixaba Paulo Sérgio (1944 – 1980) – é interpretada por Júlio Andrade. E há, ainda, a ousadia estilística de incluir na trilha sonora um sucesso de Roberto Carlos composto com o parceiro Erasmo, 120…150…200 Km por hora, ouvido na gravação original feita pelo Rei da sofrência para álbum lançado em 1970, mas também cantarolada por personagens como o gentil José, vivido pelo gigante Erasmo.

Com essa seleção musical e esse elenco, o filme Paraíso perdido ganha o espectador porque, mesmo minimizada na bibliografia musical brasileira, a antiga canção popula romântica nacional ecoa na memória afetiva do país, atravessando modismos e gerações.

Fonte: G1

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