A timidez fez com que Jesuton, britânica radicada no Brasil em 2012, demorasse a engrenar a carreira de cantora. Hoje, prestes a se apresentar em seu primeiro grande festival, o Lollapalooza, ainda lida com o problema, mas aprendeu a usá-lo ao seu favor.

“Para mim, como artista, a questão da timidez é necessária. Tenho que passar por ela”, diz ao G1. E completa:

“Sempre vou ser tímida na hora de entrar no palco. Mas não podemos nos definir por nossas fragilidades, é preciso enfrentá-las.”
Foi enfrentando a insegurança, pouco depois de chegar ao Brasil, que ela decidiu cantar nas ruas do Rio usando apenas um amplificador. Vídeos de suas performances, com versões de Adele, Amy Winehouse, Rolling Stones e outros, logo se espalharam pela internet.

Um deles chegou a Luciano Huck, que a apresentou em seu programa de TV. Em seguida, vieram o contrato com uma gravadora e o primeiro álbum de covers, “Encontros” (2012).

“Home”, seu disco autoral de estreia, saiu no ano passado. O nome e o repertório remetem às andanças da artista pelo mundo e à busca por um lugar para chamar de lar. “Aprendi que esse é um conceito altamente fluido”, explica.

‘País de poucos’
Jesuton chegou ao Brasil há seis anos sem nenhum plano, assustou-se com os preços do Rio, viu sua vida mudar ao aparecer na TV e suas músicas entrarem nas trilhas de quatro novelas.

Mas conta que, só nos últimos meses, diante da crise na segurança pública da capital fluminense, tem se surpreendido com o país, que define como um lugar “feito para poucos”.

Na entrevista abaixo, ela aponta possíveis soluções para o problema, fala sobre a perda do irmão mais novo, que influenciou “Home”, e a relação que mantém com Huck.

G1 – Você já falou sobre como a timidez afetou o início da sua carreira. Como se sente agora, prestes a se apresentar pela primeira vez em um grande festival?

Jesuton – Estou com bons pensamentos. Me sinto bem diferente daquela pessoa de 2012. Aprendi muito com tudo que fiz e estou agradecida por poder mostrar meu trabalho.

Para mim, como artista, a questão da timidez é necessária. Tenho que passar por ela. Sempre vou ser tímida na hora de entrar no palco, ainda tenho aquela reação corporal. Mas não podemos nos definir por nossas fragilidades, é preciso enfrentá-las.

G1 – Você fará no show um cover de “Céu azul”, do Charlie Brown Jr., e a morte de Chorão completa cinco anos. Como escolheu essa música para cantar?

Jesuton – Quando cheguei ao Brasil, estava ouvindo coisas em casa e cheguei nessa música. Ela me tocou de uma forma muito intensa. Sempre quis fazer algo do Charlie Brown, então fiz questão de colocá-la no show.

G1 – Um dos temas que marcam o repertório de “Home” é a busca por seu lugar no mundo. Você achou esse lar aqui no Brasil?

“Aprendi que esse conceito de lugar no mundo é altamente fluido. A casa não é uma coisa estática, vai mudando.”
As casas vão mudando, à medida em que eu vou mudando. [No disco] falo dessas viagens, reencontros, que vão definindo essa questão. Acho esse tema muito interessante. Às vezes a gente se frustra porque as coisas mudam, mas esse é um elemento muito importante.

G1 – Nesses seis anos que já passou no Brasil, o que mais a surpreendeu?

Jesuton – Ainda estou aprendendo. Cheguei aqui sem nenhum conhecimento sobre o país, e isso me ajudou porque queria aprender absolutamente tudo. Quando você cai em um lugar sem expectativa, você consegue absorver as coisas do jeito que são.

“Agora, o Rio está passando por um momento muito violento. É uma coisa totalmente inédita e, agora sim, estou me surpreendendo com o país.”
Mas também há surpresas positivas, principalmente em relação à generosidade das pessoas. Aqui é muito fácil fazer parcerias e as pessoas têm muita vontade de colocar carinho no seu trabalho. É bem diferente da Inglaterra, onde as coisas são um pouco mais frias.

G1 – Com a experiência que teve em outros países e no período em que morou no Chapéu Mangueira [favela do Leme, no Rio], o que vê como solução para a crise da segurança no Rio?

Jesuton – Estou querendo muito um momento melhor para a cidade. Mas é uma questão enraizada. [A solução] não vai ser uma coisa rápida.

“É preciso educação para dar oportunidades às pessoas marginalizadas. Essa situação em que estamos abre a possibilidade de uma série de problemas, de desemprego, de sociabilidade… O Brasil, às vezes, é feito para poucos.”
Ao mesmo tempo, o país é uma grande fonte de recursos naturais, de pessoas do bem, tem possibilidades infinitas. Mas, como é feito para poucos, não consegue aproveitar a força que tem. Mais oportunidades para as pessoas fazem com que elas tenham mais consciência, e cuidem melhor umas das outras.

São coisas estruturais. Infelizmente essas coisas demoram, mas é preciso ter paciência, porque os resultados lá na frente fazem valer a pena.

G1 – Luciano Huck foi muito importante na sua carreira. Ainda tem contato com ele?

Jesuton – Sim. Sempre nos falamos quando estou fazendo algo novo, ele faz questão de saber. Nossa conexão foi muito verdadeira. Foi uma conexão feita sem pensar no que ia sair disso. Ele sempre fala que gosta de mim, independentemente de qualquer coisa, e eu também gosto muido dele.

G1 – Li que a perda do seu irmão de 17 anos, ainda na Inglaterra, influenciou muito “Home”. De que forma esse episódio aparece no repertório?

Jesuton – No dia que o perdi, mudei como pessoa. Qualquer coisa que sai de mim, a partir disso, é diferente. Quase desisti de vir para o Brasil depois da morte dele. Decidi parar com tudo.

Mas essas coisas também promovem uma espécie de renascimento, porque você tem que reavaliar tudo. É difícil mensurar o quanto esse evento foi importante, e como influenciou tudo que eu sou hoje em dia.

G1 – Você vê o disco como um trabalho voltado ao mercado internacional?

Jesuton – Não faço essas perguntas sobre público. No meu processo criativo, tenho que cavar as coisas dentro de mim. É um processo interno mesmo. Só muito depois vejo essas coisas [de mercado].

Não estava tentando fazer um disco para qualquer público. Mas, quando ele surgiu, vi que ainda tinha a ver com muitas coisas de Londres, que eu ouvia. Trato meu trabalho com sinceridade e construo um som que conversa com essa sinceridade.

Fonte: G1

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