O coro forte e espontâneo do público quando a balada Acontecimentos (Marina Lima e Antonio Cicero, 1991) começou a ser ouvida no Circo Voador, ainda em off, já sinalizou a ovação que Marina Lima receberia na madrugada de domingo, 6 de maio de 2018, ao longo da estreia carioca do show Novas famílias. Bastou a artista entrar em cena e começar a cantar Acontecimentos para o coro consagrador ser amplificado.

“É meu Rio!”, bradou essa cantora, compositora e instrumentista de ascendência piauiense, mas identificada musicalmente com a cidade na qual viveu boa parte dos 62 anos e da qual se mudou, em 2010, para morar em São Paulo (SP).

Ao longo da apresentação, Marina se referiu várias vezes à cidade do Rio de Janeiro (RJ), geralmente nas falas, mas também em músicas como Juntas (Marina Lima e Antonio Cicero, 2018) – composição apresentada em março no álbum Novas famílias com letra que propõe a irmandade entre Rio e São Paulo – e a sempre irresistível Virgem (Marina Lima e Antonio Cicero, 1987), um dos dois números feitos pela cantora em dueto com Qinho, cantor carioca que vem fazendo show com roteiro inteiramente dedicado ao cancioneiro cosmopolita de Marina.

Foi uma noite mágica, a ponto de a voz da cantora nem ter dado os habituais sinais de fraqueza. O público que encheu o Circo Voador assistiu a um dos melhores shows de Marina nos últimos 30 anos. Pouco importou que o repertório do álbum Novas famílias tenha soado menos imponente no confronto com a obra emblemática construída pela compositora há 40 e poucos anos. O conjunto dessa obra falou por si só.

Potencializada pela força do repertório antigo, a eletricidade da plateia energizou a própria cantora e o fato é que, nos braços do público carioca, Marina Lima fez um país com apresentação antológica na carreira da artista. O Brasil sempre moderno de Marina Lima abarcou a verve aliciadora do pop de Rita Lee & Roberto de Carvalho (Nem luxo nem lixo, joia de 1980 que Marina usou em 1995), uma lembrança meio deslocada do repertório da Nação Zumbi – A cidade (Chico Science), música gravada pela cantora em 1995 quando a lama do Mangue Beat mal tinha sido revolvida – e incursão pelo tecnobrega nortista com É sexy, é gostoso (2018).

Pérola do álbum Novas famílias, É sexy, é gostoso é parceria de Marina com Arthur Kunz e Dustan Gallas, músicos que formaram a banda do show com Leo Chermont, companheiro de Kunz no duo paraense Strobo, cuja parceria com a cantora em Vingativa (2016) também foi rebobinada no roteiro.

Em sintonia com a abertura do leque rítmico de Novas famílias, disco antenado com o tempo presente, a cantora se permitiu até revisitar Mesmo que seja eu (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1982) no ritmo nordestino da sofrência, como se a música tivesse sido gerada em algum vitrolão do interior do Brasil. Momentos antes, ela tinha chamado Qinho ao palco para cantar Pessoa (Dalto e Cláudio Rabello, 1983), o hit de Dalto que Marina refinou e tomou para si a partir da gravação feita em 1993 para o álbum O chamado. Qinho acabou eclipsado pela energia solar do público no coro da canção.

Em número mais interiorizado, Marina entrou no tom dos teclados de Dustan Gallas para dar voz a Muito (1978), canção de Caetano Veloso que gravou lá nos primórdios da carreira fonográfica, mais exatamente no primeiro álbum, Simples como fogo, lançado no início de 1979. Nesse mesmo clima ambientado pelo toque dos teclados de Gallas, a cantora deu voz à canção Não sei dançar (Alvin L, 1991), grande música do melhor álbum da artista, Marina Lima (1991).

Em que pesem as boas colheitas em árvores alheias, Marina fez o show gravitar em torno de um cancioneiro autoral que sempre deu bons frutos. Lembrou Charme do mundo (Marina Lima e Antonio Cicero, 1981) com… o charme do mundo, enfatizou no toque acústico do violão a beleza da melodia da canção-título Novas famílias (Marina Lima, 2018) – a melodia mais inspirada da safra atual da compositora – e mostrou toda a pegada do rock Partiu (Marina Lima, 2015) com arranjo vibrante que valorizou a música como nunca. Sem falar no controvertido funk Só os coxinhas (Marina Lima e Antonio Cicero, 2018), pretexto para os coros de “Fora Temer” e “Lula livre”.

Com Letrux, codinome artístico adotado pela cantora e compositora carioca Letícia Novaes após o fim do duo Letuce, a anfitriã se afinou ao cantar Anna Bella (Marina Lima e Antonio Cicero, 2006), Puro disfarce (Arthur Braganti e Letícia Novaes, 2017) – música gravada por Marina no álbum solo de Letrux em dueto bisado ao vivo no show com a adição do toque da banda da artista convidada – e, alguns números depois, a indignada Mãe gentil (Marina Lima, Arthur Kunz e Letícia Novaes, 2018), música feita na vibe eletrônica da gravação do álbum Novas famílias e ironicamente precedida por prefixo instrumento do Hino Nacional Brasileiro (Francisco Manuel da Silva, 1822).

Na sequência, houve a canção O chamado (Marina Lima e Giovanni Bizzotto, 1993) e uma catártica Fullgás (Marina Lima e Antonio Lima) que esquentou – ainda mais – o show e preparou o clima para o fim com À francesa (Claudio Zoli e Antonio Cicero, 1989), a roqueira Pra começar (Marina Lima e Antonio Cicero, 1986) e Uma noite e 1/2 (Renato Rocket, 1987), pop carioca como o espírito da obra dessa artista que, mesmo em São Paulo, continua ligada no Rio de Janeiro. Tanto que até os coxinhas que por ventura assistiram à estreia carioca do show Novas famílias devem ter ficado arrebatados com a eletrizante apresentação de Marina Lima no Circo Voador na madrugada de 6 de maio.

Fonte: G1

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