“Deixa a Maria me levar”, gracejou Zeca Pagodinho, alterando o verso-título do refrão do samba Deixa a vida me levar (Serginho Meriti e Eri do Cais, 2002), cantado com sutis intervenções de Bethânia no bis do show que juntou o sambista carioca com a intérprete baiana. O gracejo corroborou o discurso recorrente feito por Pagodinho quando se dirigiu à plateia que encheu a casa Classic Hall em Olinda (PE) para assistir na noite de ontem, 7 de abril de 2018, à estreia nacional do show De Santo Amaro a Xerém.

“Ela manda! É a chefe! O plebeu tem que obedecer à rainha”, brincou Zeca na primeira parte do show, quando, no embalo da cadência do inédito samba de roda De Santo Amaro a Xerém (Leandro Fregonesi, 2018), os cantores apresentaram a banda que integrou músicos habituados a tocar com os dois artistas.

Mesmo que a interação entre Zeca e Bethânia tenha se reduzido a 13 das cerca de 40 músicas do roteiro, o afeto e a descontração deram o tom da apresentação. Novamente sob a direção musical de Jaime Alem, Bethânia saudou Zeca como “príncipe encantado”. Zeca afagou o ego de Bethânia reiterando diversas vezes a obediência com que sinalizou que era ele que tinha entrado na roda e no reino dela – e não o contrário.

Como ambos estavam felizes com os papéis que representavam em cena, plebeu e rainha se afinaram mesmo quando não acertaram o passo. Bethânia riu quando Zeca, ignorando uma possível marcação, virou de costas para o público na apresentação da banda. Zeca pareceu surpreendido quando Bethânia entrou em cena para recitar em feitio de oração os versos falados de Ogum (Marquinhos PQD e Claudemir, 2008), número do set solo do artista.

O samba foi o elo que aproximou e conduziu os cantores na travessia que foi da interiorana cidade baiana de Santo Amaro da Purificação (BA) – mapeada com romantismo pelo compositor Leandro Fregonesi no inédito samba Pertinho de Salvador, rebatizado por Bethânia com o nome da cidade natal da cantora – ao bairro de Xerém, quintal preferencial de Zeca, situado no município fluminense de Duque de Caxias (RJ).

Ao criar (a pedido de Bethânia) o inédito samba de roda Amaro Xerém, de cadência e melodia sedutoras, Caetano Veloso reiterou a maestria como compositor ao fornecer para Bethânia samba de poesia refinada, feita com versos que soaram coloquiais, embora plenos de sentidos amplos. Passou todo um Brasil pelos trilhos em que Caetano ligou Santo Amaro a Xerém (BA) no samba que abriu e fechou o show, antes do bis.

Passou o Brasil seresteiro de Chão de estrelas (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1937), salpicado de lirismo e doçura no dueto de Zeca com Bethânia. Passou também o Brasil sentimental do samba-canção E daí? (Miguel Gustavo), revivido em duo afetuoso no qual Zeca afagou Bethânia, terno, cúmplice, súdito da rainha.

Passou ainda o choro de Jacob do Bandolim (1918 – 1969), cuja memória foi evocada no samba-choro Naquela mesa (Sérgio Bittencourt, 1972), solo de Zeca no ótimo bloco final que, ao lado da parte inicial, concretizou de fato o anunciado encontro inédito de Bethânia e Zeca, diluído ao longo do show em breves diálogos e em sets individuais que, no caso do bloco de Zeca, demorou a surtir efeito no público, em que pese o cantor ter enfileirado os maiores sucessos da carreira nesse bloco aberto com A voz do morro (Zé Kétti, 1955), demarcação do território carioca do samba.

“Eu tinha que ser baiano”, brincou Zeca, mais adiante, fazendo nova graça, antes de iniciar Samba pras moças (Roque Ferreira e Grazielle, 1995), tema do repertório do cantor que mais dialoga com o samba do Recôncavo cantado por Bethânia. Mas Bethânia também é da Mangueira, onde o Rio é mais baiano, como decretou Caetano em sentença citada por Adriana Calcanhotto na letra de A surdo 1, inédito samba em tom maior com o qual a compositora celebrou a vitória da Mangueira no Carnaval de 2016 com enredo sobre Bethânia.

Atenta aos sinais do Brasil de Chico Buarque de Mangueira, país que vive noites de fogueiras desvairadas, Bethânia também se permitiu fazer a própria citação, inserindo declamação de versos de Derradeira estação (Chico Buarque, 1987) na abordagem de Marginália II (Gilberto Gil e Torquato Neto, 1968), recado político do set individual da alteza, que reviveu os tempos em que reinava na carioca boate Barroco cantando dois sambas, Pano legal (Billy Blanco, 1956) e Café soçaite (Miguel Gustavo, 1955), que registrou há 50 anos em disco ao vivo de 1968.

Demarcando o próprio território, como diretora não oficial do show, Bethânia mergulhou nas águas de Purificar o Subaé (Caetano Veloso, 1981), samba ausente do roteiro previamente distribuído à imprensa dias antes da estreia do show.

De Chico, Bethânia também cantou Cotidiano (Chico Buarque, 1972), resposta ao diálogo conjugal iniciado por Zeca com Você não entende nada (Caetano Veloso, 1970), samba em que o plebeu se permitiu ser marotamente teatral. Zeca ou Jessé Gomes da Silva Filho, pois, como o cantor brincou novamente, era o Jessé (nome de batismo do sambista) quem estava em cena no bloco inicial com Bethânia.

“Agora tá chegando o Zeca Pagodinho”, gracejou após cantar o samba Maneiras (Silvio da Silva, 1987). A graça diluiu alguns problemas de som ao longo do show e realçou o tom festivo da travessia feita de Santo Amaro a Xerém por dois cantores de temperamentos quase antagônicos que se encontraram na linha do samba.

Tanto que, já no início do show, ambos enfatizaram o verso-título do refrão do samba Sonho meu (Ivone Lara e Délcio Carvalho, 1978), sucesso de Bethânia em fase de auge comercial, para ressaltar o prazer de estarem ali, juntos.

O público também pareceu sentir prazer, mesmo tendo percebido que Zeca somente cantou trecho de Portela na avenida (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, 1981) antes de dar voz a um dos mais belos sambas-enredos da escola Portela, Lendas e mistérios da Amazônia (Catoni, Jabolô e Valtenir, 1970), ponto alto do set em exaltação à agremiação azul e branca que tem Zeca como torcedor.

Fonte: G1

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