Por mais que haja eventuais desajustes no encaixe do repertório de Marisa Monte na narrativa lírica de Romeu e Julieta, tragédia romântica presumivelmente escrita em 1595 pelo dramaturgo inglês William Shakespeare (1564 – 1616), o espetáculo recém-estreado na cidade do Rio de Janeiro (RJ) paira acima do padrão populista de um subgênero que pode ser rotulado como musical de barzinho.

Em bom português, há dramaturgia sólida – ainda que bastante diluída por Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche para adaptar o texto aos tempos modernos – e não somente um fio tênue de ação posto em cena como mero condutor para o canto coletivo de músicas conhecidas.

O refinado padrão estético do espetáculo Romeu + Julieta ao som de Marisa Monte se torna visível desde que as cortinas se abrem e o público vê as torres de pedra que compõem cenário verticalizado, erguido com a assinatura da arquitetura concreta de Daniela Thomas. Esse alto padrão é sublinhado pela luz de Monique Gardenberg, pela excelência dos atores – mais um mérito da produtora de elenco Marcela Altberg – e pelos arranjos vocais de Jules Vandystadt.

Por mais que o diretor musical Apollo Nove tenha posto batidas contemporâneas em cena, sobretudo nos números musicais do irregular primeiro ato, o tratamento vocal dado ao cancioneiro de Marisa Monte por Vandystadt muitas vezes vai contra a própria natureza pop do espetáculo idealizado e dirigido por Guilherme Leme Garcia. E isso contribui positivamente para que Romeu + Julieta ao som de Marisa Monte se distancie do formato do musical moderninho de barzinho.

É arrepiante o arremate da ação trágica ao som de A primeira pedra (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, 2006), bela canção do versos “Atire a primeira pedra / Quem não sofreu / Quem não morreu por amor”. Aliás, se Romeu + Julieta muitas vezes flui bem ao som do cancioneiro de Marisa Monte, é porque o amor é muitas vezes abordado na obra da compositora carioca sob prisma exacerbadamente romântico, com passionalidade adolescente que se ajusta ao tom fatalista da tragédia de Shakespeare.

Como Romeu e como Julieta, Marisa Monte – vista ao lato em foto de Leo Aversa – ama o amor e a condição de estar amando. É da paixão pelo amor que tratam os versos de Amor, I love you (Marisa Monte e Carlinhos Brown, 2000) e de Ainda bem (Marisa Monte e Arnaldo Antunes, 2006), ouvidos nas vozes de Julieta (Bárbara Sut) e Romeu (Thiago Machado), respectivamente.

Por conta desse arrebatamento pelo romantismo, mote do texto de Shakespeare, texto e música se afinam como se tivessem sido feitos um para o outro quando Julieta pede para Romeu ficar mais ao som de Não vá embora (Marisa Monte e Arnaldo Antunes, 2000) ou quando Romeu e Julieta reverberam juntos a decisão de seguirem incondicionalmente lado a lado em É você (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, 2002). No caso de Não vá embora, essa harmonia é potencializada pelo arranjo vocal que engrandece o número.

O belo efeito sonoro de Vilarejo (Marisa Monte, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e Pedro Baby, 2006), em número puxado pelo Frei Lourenço (Claudio Galvan) e encorpado pelo coro na cena do casamento que fecha o primeiro ato, também exemplifica a sofisticação inerente ao espetáculo, ainda que a inserção da canção Vilarejo na narrativa soe menos natural.

Esse, a propósito, é o problema mais grave de Romeu + Julieta ao som de Marisa Monte, sobretudo no primeiro ato. Na primeira metade do espetáculo, há forçados links entre o texto de Shakespeare e o repertório de Marisa Monte. Nada justifica a inclusão de Infinito particular (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, 2006) na voz de Teobaldo (Pedro Caetano). Instantes depois, chega a soar risível a interpretação de Esqueça (Forget him) (Mark Anthony, 1963, em versão de Roberto Corte Real, 1966) – canção do reino pueril da Jovem Guarda que Marisa gravou para a trilha sonora de filme de 2003 – na voz do mesmo Teobaldo somente porque este integrante da família Capuleto proferiu que não iria esquecer ofensa do impulsivo Romeu.

Os números musicais do baile da família de Julieta, aliás, soam artificiais, ainda que Panis et circenses (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968) faça algum sentido na cena, com a curiosidade adicional de ser música puxada por Kacau Gomes (Sra. Capuleto), atriz e cantora que já foi backing-vocal de Marisa Monte na época do show e disco Memórias, crônicas e declarações de amor (2000). Há também excesso de músicas no primeiro ato, o que provoca o desperdício de boas canções como Noturna (Marisa Monte, Lúcio Silva e Lucas Silva, 2016).

Em contrapartida, soa charmosa a recorrente citação instrumental de Negro gato (Getúlio Côrtes, 1965) nas aparições de Mercuccio, personagem que ganhou composição andrógina na pele do expressivo ator Ícaro Silva. Da mesma forma, merece menção honrosa o uso de Volte para seu lar (Arnaldo Antunes, 1991) na cena que abre o segundo ato com o enfrentamento das gangues das famílias rivais. Engenhosa também é a cena em que Julieta canta Perdão você (Carlinhos Brown e Alain Tavares, 2000) após beber o elixir que provocará a sensação de falsa morte da jovem.

O segundo ato redime o espetáculo das forçações do primeiro, soando mais fluente e dramático – o que oferece mais chance de brilho para atores tarimbados como Stella Maria Rodrigues (Ama, personagem alvo de humor quase caricato no primeiro ato). E por falar no elenco, a escalação do par central resulta acertada tanto do ponto de vista musical quanto teatral. Além de cantarem bem, Thiago Machado e Bárbara Sut dão a devida intensidade a Romeu e Julieta, tornando crível tanto a ardência do casal na fogueira das paixões desvairadas como a interpretação de canções como De mais ninguém (Marisa Monte e Arnaldo Antunes, 1994), doído solo do rapaz.

Em cartaz no Teatro Riachuelo de sexta-feira a domingo até 27 de maio, Romeu + Julieta ao som de Marisa Monte fragmenta o texto romântico de Shakespeare em nome da agilidade pretendida para um espetáculo pop, gerando musical moderno que se desvia do trilho nostálgico que conduz a maior parte das encenações do gênero no Rio de Janeiro, geralmente direcionadas a um público mais idoso e saudosista.

O espetáculo de Guilherme Leme Garcia tem ótimo acabamento plástico e propicia a constatação da força e da coerência do cancioneiro de Marisa Monte ao lançar mão de músicas gravadas pela cantora desde o primeiro álbum, apresentado em janeiro de 1989, ao recente segundo disco dos Tribalistas, lançado em agosto de 2017 com repertório do qual o roteiro musical de Romeu + Julieta aproveita Um só (Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Brás Antunes, 2017).

Enfim, aproximar o texto de Romeu e Julieta do universo pop, com linguagem contemporânea, é algo já feito pelo cineasta Baz Luhrmann em filme norte-americano de 1996 estrelado pelo ator Leonardo DiCaprio. A sagaz ideia do atual musical carioca é inserir a música de Marisa Monte neste contexto pop. Felizmente, a equipe de criação de Romeu + Julieta ao som de Marisa Monte entendeu que musicais não podem se igualar a shows de barzinhos em que tudo se resume a fazer o público cantar junto um punhado de sucessos.

Quando essa natureza populista se manifesta no espetáculo de Guilherme Leme Garcia, ao som do canto coletivo de Bem que se quis (E po’ che fà) (Pino Danielle, 1982, em versão em português de Nelson Motta, 1989) nos agradecimentos do elenco, já é tarde. O público já viu um espetáculo que, mesmo com desajustes, se eleva no panorama atualmente preguiçoso da produção carioca de musicais de teatro.

Fonte: G1

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