Quase desfigurada do meio para a frente, a seleção sub-20 empatou sem gols com o México neste domingo em Manaus. E quase perdeu, embora não tenha jogado mal. Levou uma bola na trave, e no último lance do jogo os mexicanos desperdiçaram uma chance claríssima de gol. Ainda assim, houve coisas boas em campo, embora o poderio ofensivo do time estivesse bastante comprometido.

Uma delas é Jonas Toró, que deu a assistência para o gol de empate na quinta-feira. O atacante do São Paulo, que só foi para a lista por causa das desconvocações de Lincoln, Brenner, Vinícius Júnior, Paulinho, Fernando, Papagaio, Yuri Alberto, Alerrandro e Junior Brumado (acho que o blog esqueceu alguém aqui, mas ok, faz parte), não sentiu o peso da amarelinha e jogou com a leveza de quem disputa uma pelada de rua sem hora para acabar em Belém do São Francisco, sua terra natal. Certamente fez por merecer entrar no radar de Carlos Amadeu, que não deve ter ficado triste em ter visto aumentar o seu leque de opções.

O blogueiro que vos escreve também viu coisas boas em Alanzinho, Mauro Júnior, Helinho e Augusto. É visível a qualidade dos quatro, e a briga vai ser boa por uma vaga no meio. Richard, do Internacional, fez um jogo razoável, mas pode render mais. E Igor Gomes, meio como um “falso 9”, teve lampejos, mas oscilou. Falta ainda um pouco de consistência defensiva (em que pese a boa atuação de Thuler), um ajuste a mais na transição, mas até para isso o bom teste contra os mexicanos serviu: deixar claro problemas de uma equipe que precisa se formar e está com a preparação atrasada para o Sul-Americano Sub-20.

O problema maior está, no momento, fora das quatro linhas. As desconvocações são um sintoma claro de que os clubes não gostaram nem um pouco da estratégia adotada pela CBF, de convocar primeiro, sem diálogo com eles, para depois os próprios clubes pedirem a desconvocação. E menos ainda da tentativa de sensibilizá-los, feita pela entidade, via imprensa, sem que houvesse um debate.

Alguns deles verbalizaram essa insatisfação, como é o caso do Bahia, que comunicou por suas redes sociais que Junior Brumado, centroavante, estava lesionado e não poderia viajar com a seleção sub-20. Paulinho, atacante do Vasco, também foi desconvocado, mesmo com a promessa do clube que, se fosse eliminado da Taça Rio (como de fato foi), ele iria a Manaus. Pesou, no caso, a questão física.

Os clubes estão, é claro, no direito deles. A Data Fifa só estipula liberação às seleções profissionais (o que não é, de maneira nenhuma, responsabilidade da CBF). E o calendário brasileiro estipula jogos dos times profissionais nas Datas Fifa (bom, aí nesse caso há responsabilidade dos clubes e da entidade). Mas aí é um problema maior, que já vem de muito tempo.

A questão enfrentada pela seleção sub-20 não é exatamente nova. Em 2013, quando Emerson Ávila era o comandante isolado de uma terra arrasada, um projeto completamente abandonado pela própria CBF e por quem o idealizou, precisou lidar com as não liberações de Fabinho e Marquinhos, que já jogavam no exterior. Sofreu também, é verdade, com o fato de estar completamente sozinho à frente de todas as seleções de base ao mesmo tempo, tudo junto e misturado. Deu no que deu: Brasil sub-20 eliminado na primeira fase.

Em 2015, a seleção sub-20 convocada para o Sul-Americano por Alexandre Gallo tinha em sua lista inicial o volante Danilo, então no Braga, de Portugal. Dez minutos depois, o nome do volante foi retirado da convocação inicial. Danilo era peça-chave no esquema de Gallo e o time sentiu bastante a sua ausência, embora tivesse, na visão do blog, talento para produzir mais do que produziu, como foi visto no Mundial daquele ano.

Em 2017, a seleção sub-20 sofreu com a não liberação de uma série de jogadores também na preparação, em 2016. E outros no Sul-Americano, como Shaylon, do São Paulo, João Pedro, do Atlético-PR e Malcom, do Bordeaux. O problema é recorrente em todas as seleções sul-americanas e atinge mais o Brasil, que vende mais para o exterior.

Tudo isso não poderia ser evitado. Mas poderia sim, ser minimizado, caso houvesse mais convocações de garotos 99 no ano passado, quando um número menor deles jogava nos profissionais e as possibilidades de liberação eram maiores, mas as coisas ficam para depois, sempre para depois, tudo para a última hora. No ano passado, a prioridade clara do coordenador de seleções, Edu Gaspar, era, e deveria ser, a classificação para a Copa do Mundo, conquistada de maneira brilhante e incontestável.

Mas a base, bem, a base ficou de lado, quase num segundo plano. A ausência de um coordenador (e há diversos nomes capacitados no mercado) é algo que preocupa, principalmente porque, em ano de Copa do Mundo, presume-se que seja a prioridade total de uma confederação. E assim realmente deve ser. Nesse contexto, qual será a atenção dada para uma integração quando o foco está, com total justiça, voltado integralmente para o resultado final de um torneio que é a razão pela qual essa comissão técnica foi contratada?

Foi mostrado, em um encontro de jornalistas, um projeto para a base, com integração com os profissionais, contratação de observadores part-time em todas as regiões do país, uma evolução interessante. Mas quem comandará esse processo diariamente para que seja bem conduzido? Ficará ele nas mãos dos treinadores ou observadores gerando um acúmulo de funções? Ou o acúmulo fica lá em cima?

Esse impasse com os clubes é um indício claro de que não há, no momento, um diálogo satisfatório para as duas partes, que se faz necessário e fundamental. E quanto mais o tempo passa, mais o Sul-Americano se aproxima. Ok, ok, há uma Copa do Mundo no meio do caminho, a prioridade é outra, o futuro é uma incógnita e não adianta chorar pelo leite derramado, porque o passado não volta. Mas um planejamento um pouco mais antecipado e uns joguinhos a mais de preparação não fariam mal a ninguém.

Fonte: GloboEsporte

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