Ao ser lançado no mercado fonográfico brasileiro, na segunda metade da década de 1970, o carioca Emilio Santiago (1946 – 2013) se impôs instantaneamente como um dos melhores cantores brasileiros de todos os tempos. Contudo, apesar do prestígio pelo alto padrão vocal e de alguns hits eventuais, Emilio somente conseguiu público e sucesso duradouro quando, a partir de 1988, passou a regravar hits da MPB em medleys na série de discos intitulada Aquarela brasileira e lançada há 30 anos pela gravadora Som Livre com retumbante êxito comercial. Tanto que Emilio exauriu a fórmula em nada menos do que sete volumes.

Como o anterior Tardezinha, disco ao vivo lançado em janeiro de 2017, o atual Tardezinha 2 (Som Livre) enfileira 11 medleys com hits do pagode ao longo das 12 faixas. Só que, se havia um mínimo cuidado na produção da série de Emilio, o disco ao vivo de Thiaguinho soa linear, monocórdico, na produção orquestrada pelo próprio Thiaguinho com Rodriguinho e Prateado.

O clima da gravação ao vivo feita em 29 de abril deste ano de 2018 é o mesmo do primeiro medley – com a junção de Valeu (Thiaguinho e Rodriguinho, 2009) com Livre pra voar (Thiaguinho e Rodriguinho, 2007) – à última faixa do disco, fechado com esquizofrênico medley que força o link de Sina (Djavan, 1982) com Eva ((Umberto Tozzi e Giancarlo Bigazzi, 1982, em versão em português de Marcos Ficarelli, 1983), sucesso do grupo Rádio Taxi que a Banda Eva tomou para si na década de 1990. Sina, a propósito, perde todo o suingue personalíssimo de Djavan no registro de Thiaguinho.

Se o primeiro volume de Tardezinha gravitou basicamente na roda do pagode da década de 1990, Tardezinha 2 expande o leque temporal da seleção de repertório e entra pelos anos 2000, indo até 2016, ano do pagode genérico Pé na areia (Rodrigo Leite, Diogo Leite e Cauique), lançado há dois anos na voz do cantor Diogo Nogueira e ora regravado por Thiaguinho sem costura com outro hit (é o único samba do disco não alocado em medley).

Em qualquer tempo, o segundo volume patina no mesmo tom padronizado do primeiro. É como se Thiaguinho fosse um cantor de barzinho que desfila hits com o coro de um público que quer somente cantar junto um punhado de sucessos sem se importar com quem está puxando esses sucessos na roda. O coro popular de Tardezinha 2 soa forte e caloroso, estando evidenciando na mixagem do disco, o que somente reforça a natureza puramente comercial do projeto.

É fato que alguns hits da seleção de pagode, como Depois do prazer (Chico Roque e Sérgio Caetano, 1997) e Recado à minha amada (Salgadinho, Fi e Juninho, 1996), sobressaem na aquarela pelo tom mais sedutor da melodia. No geral, entretanto, Thiaguinho dá voz a sambas mais genéricos. Nesse sentido, ele se distancia bastante de Emilio Santiago, cantor que ia na fonte da melhor música do Brasil para pintar as aquarelas que o tornaram popular há 30 anos.

Fonte: G1

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